“Ganchas” de São Brás | Gastronomia tradicional

 

As ganchas de São Brás são um «rebuçado» original da região de Vila Real.

Não fazem parte da chamada doçaria conventual, que tem expressão significativa na culinária transmontana, estando antes ligada às crenças religiosas e populares, mas com esteios de factos verdadeiros e históricos. Não lhes faltam também o complemento, comum a muitas outras, da fantasia de algumas lendas e tradições.

Estas, tantas vezes alicerçadas nas páginas do passado, vão adquirindo o «travo» que o tempo adultera e modifica ao gosto da época ou do contador. Mesmo que escritas, e não sendo coevas dos acontecimentos ou documentadas em provas irrefutáveis, ficam à mercê do testemunho oral até que os historiadores e cronistas as registem, quantas vezes já algo afastadas da realidade.

Não restam porém dúvidas que as ganchas estão associadas a São Brás que, vivendo nos primórdios do Cristianismo (séc.IV), tomou a púrpura do bispado.

Fez porém primeiro a sua vida no deserto em completo isolamento e oração, o eremitério onde não terá esquecido os seus estudos de medicina, e foi ali que o mandaram chamar para desempenhar o cargo diocesano na sua terra natal, Sebaste, cidade da Arménia.

Tornou-se assim num dos Bispos da Igreja que ascendeu à santidade, estatuto para que contribui o testemunho de obra ímpar e exemplo de vida, milagre acontecido na presença e acção ou por sua mercê e benção na ausência.

Ao regressar à sua cidade para a sua nova missão de «pastorear um rebanho» que até ali o deserto lhe não proporcionara, encontrou uma pobre mulher que lhe apresentou um filho de tenra idade, que tinha uma espinha entalada na garganta.

A criancinha estava já roxa e agonizante quando o santo se acercou dela. Pôs-lhe as mãos nas faces e garganta e, depois de umas orações, deu-se o milagre: o rebento depressa recuperou o brilho dos olhos, o sorriso infantil iluminou-lhe o rosto e, ao mesmo tempo, acenou com gratidão a quem lhe fizera desaparecer o mortal padecimento.

Ficou a partir daí São Brás a ser conhecido como o orago e arrimo dos sofredores da garganta, e não tardou a que pelas proximidades, e sendo ele médico, o campo das maleitas encomendadas não se alargasse a outras do foro oral e otorrino.

Foi por algumas destas razões históricas que se chegou às origens das ganchas. É a solução incompleta e sem certeza feita, como acontece com factos e acontecimentos da raiz dos tempos, e sujeita ao que os tempos e as gentes por certo modificaram, e que a aturada pesquisa não conseguiu expurgar.

Com todos os cuidados que a Ciência Histórica recomenda, pois parecia simples e óbvio que a «gancha» fosse a iconização do báculo bispal de S. Brás, não faltam porém as alusões a uma espécie de espátula para «pincelar» gargantas ou desalojar objectos estranhos nela instalados. A justificar a doçura são várias as razões. Nas mais aceitáveis a de que seria para «adoçar o bico» às crianças e facilitar o trabalho ou, como o mel, teria efeito balsâmico e apaziguador nas gargantas irritadas ou inflamadas, quando enriquecida a mistura com outros ungentos, ervas e aromas.

Chegamos assim ao S. Brás que, a 3 de Fevereiro de cada ano, se celebra e honra na sua capelinha de S. Dinis, em Vila Real, cumprindo-se ou fazendo-se novas promessas de tagarelas afónicas,  gargantas desafinadas, rouquidões tísicas, nós que não desatam, bocas abertas de espanto ou outros engaranhos orais.

Com os tempos vieram outras andanças e modas, e outros modos de celebrar, cumprir a prometer. Todos lá vão, estudantes, doutores ou iletrados, e fazem a volta ao cemitério, às arrecuas, sem abrir a boca para não entrar enguiço.

Depois, é a festa, os foguetes e os sinos com a música a acompanhar e as quadras que ninguém esquece e trauteia ao compasso do badalo da torre de S. Dinis.

Eu vou ao S. Brás
de cú para trás
comprar uma gancha
p’ró meu rapaz

Eu vou ao S. Brás
de cú para a frente
comprar uma gancha
p’rá minha gente

Eu vou ao S. Brás
de cú para o lado
comprar uma gancha
p’ró meu namorado

Esta é a tradição que lembra a da Santa Luzia e dos «pitos», a 13 de Dezembro, outra festa a recordar o S. Brás. É a «relação» e o ritual de trocas e promessas do pito dado a quem deu a gancha e vice-versa. Atente-se porém nas quadras que atribuem à rapariga a compra da gancha para dar. Talvez a lembrar oferta dezembrina não aceite?… Ou então, como refere escrito recente, a quem nunca lha tenha dado ou usado. Repare-se que a gancha, retorcida como bengala, conforme se lhe pega, tanto arrebita para cima como cai para baixo…

Retirado de folheto promocional da Região de Turismo da Serra do Marão. Pesquisa histórica de Juvenal Cardápio | Imagem de destaque

 

São Brás – “Protector contra as doenças da garganta” e “Padroeiro dos Cardadores”

Em Latim S.Blasius, em Catalão S. Blai, em Francês S. Blaise, em Espanhol S. Blas.

S. Brás nasceu na cidade de Sebaste, na actual Arménia, nos finais do séc.III. Já depois de ter assumido a profissão de médico, sentiu o chamamento de Deus a uma consagração cristã, pelo que terá deixado a sua vida citadina e a sua própria terra indo para os montes, optando por uma modesta vida solitária de oração e de penitência.

A sua fama de santo começou a espalhar-se na comunidade de Sebaste e, quando morreu o bispo daquela cidade, todos o aclamaram como novo pastor. São Brás só aceitou a nova responsabilidade pela forte insistência dos membros da comunidade, porque desejava muito mais a vida retirada de oração e contemplação. Mesmo como bispo continuava a viver numa caverna no Monte Argeu, no meio de animais ferozes, com quem convivia, vindo somente à cidade apenas quando as obrigações de pastor o exigiam.

Na altura da perseguição aos cristãos ordenada pelo então Imperador Licinius Lacinianus (308-324), São Brás, conhecido pela sua extrema bondade, santidade e milagres, é preso pelo anticristão Agrícola, que governava a Capadócia e a Arménia, e obrigado a adorar os deuses pagãos. Negou-se São Brás, dizendo: “não quero ser amigo dos vossos deuses, porque não quero arder eternamente com os demónios”. Foi açoitado, posto no ecúleo (cavalete de tortura), submetido aos «garfos» com puas de ferro e lançado a um lago de água gelada, sendo, por fim, degolado. Decorria o ano de 316.

O corpo, recolhido pelos cristãos, terá sido colocado numa pequena igreja em Sebaste. Mais tarde, as suas relíquias foram trasladadas para a actual basílica, cuja localização recebeu o nome de Monte São Brás.

Ao longo do tempo, são testemunhados muitos gestos e milagres em favor dos mais pobres e enfermos. Um dia, sem qualquer instrumento, retirou da garganta de um menino uma espinha de peixe, salvando-lhe, assim, a vida. Por este facto, S. Brás é conhecido como protector contra as doenças da garganta.

Também é o padroeiro dos cardadores, devido a ter sido martirizado com os «pentes» de ferro, objectos que utilizam aqueles na sua profissão.

Até ao século XI, São Brás não entra no calendário litúrgico romano. A partir daí, começa a ter lugar nele pela grande devoção que passou a ser-lhe dedicada em Roma, onde lhe erigiram trinta e cinco igrejas.

Figura entre os catorze santos auxiliadores, e as suas relíquias estão em Brusswick, Mainz, Lubeck, Trier e Cologne na Alemanha. Em França estão em Paray-le-Monial, em Dubrovnik na antiga Iugoslávia, em Roma, Taranto e Milão em Itália.