O Folclore Saloio e a construção do Convento de Mafra

 

Aldeão dos arredores de Mafra segundo uma gravura francesa do início do século XIX ou seja, o período das invasões francesas. De Henry L’Evêque, “Costume of Portugal”, 1814. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Quando em 1717 se iniciou a construção do Convento de Mafra, não se imaginava o impacto social e cultural que o mesmo viria a produzir mormente na região. Inicialmente pensado para ser erguido nos terrenos pertencentes aos marqueses de Ponte de Lima, então donatários da vila de Mafra, com vista a alojar uma dezena de frades da Ordem de S. Francisco da Província da Arrábida, o rei D. João V viria em 1712 a determinar a sua construção no sítio então chamado “Alto da Vela”, alegadamente em cumprimento de uma promessa. Com o decorrer do tempo, a imponência do monumento levou a uma certa secundarização da área histórica de Mafra, ao ponto da maioria dos visitantes daquela vila desconhecerem a vetusta Igreja de Santo André a denunciar a arquitectura de uma velha mesquita ou ainda o Palácio dos Marqueses de Ponte de Lima, actualmente em ruínas e erguido sobre as antigas muralhas da povoação.

Os trabalhos de construção do Convento de Mafra empregaram então 52 mil trabalhadores, um número claramente superior à população que então residia naquela região. Eram operários oriundos um pouco de todo a parte, com hábitos e costumes diferenciados entre si e da população local. Para além daquela imensa massa humana que durante década e meia ali trabalhou arduamente, há ainda a registar aqueles que de alguma forma estiveram envolvidos naqueles trabalhos, ainda que indirectamente, assegurando nomeadamente o abastecimento de víveres e outros bens de que necessitavam, bem como a sua confecção e alojamento.

Aldeão dos arredores de Mafra segundo uma gravura francesa do início do século XIX ou seja, o período das invasões francesas. De Henry L’Evêque, “Costume of Portugal”, 1814. (Foto: Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Feita uma descrição bastante sumária do esforço humano que um projecto de tal envergadura implicou para a época, fácil será de imaginar o efeito cultural produzido e o impacto social que obteve na vida local. Nos momentos de ócio que decerto também os haveria, nas festas religiosas e romarias que tinham lugar nas aldeias em redor, certamente se misturaram diferentes formas de dançar, cruzaram-se os cantares e confundiram-se diversas formas de trajar. Afinal de contas, a música e os bailaricos no terreiro eram então as únicas formas de divertimento das gentes simples do povo e, naturalmente, os operários que vieram para Mafra trouxeram consigo instrumentos musicais, da mesma forma que alguns séculos antes se levaram guitarras para o campo de batalha em Alcácer Quibir.

Uma vez terminadas as obras de construção do convento, decerto nem todos regressaram às suas origens. Durante o tempo que permaneceram em Mafra, muitos houve certamente que se enamoraram das moças da região, constituíram família e resolveram fixar-se, amanhando as terras que até então eram apenas cultivadas pelos saloios. Daí resulta uma certa influência no folclore local, nos instrumentos que utilizam, nas danças e cantares que lhes são características. Não admira, pois, que encontremos por aqui a gaita-de-foles ou nos surpreendam com uma desfolhada na eira ou ainda a execução de um “vira” ou uma “caninha verde”. Já a “Contradança”, que também aqui possui a sua expressão, terá naturalmente a ver com a presença dos invasores franceses na localidade. Também a tradição oral expressa através de provérbios, contos e inúmeras cantigas reflecte a influência transmitida pelas gentes provenientes de outras regiões do país.

Em consequência, ainda que conserve muitas dos seus traços originais, a caracterização do camponês da região de Mafra não corresponde integralmente ao perfil do saloio enquanto descendente dos berberes que outrora se fixaram no termo de Lisboa e estavam obrigados a pagar ao rei cristão o tributo que antes entregavam aos reis mouros e a que designavam por “çalaio”, supondo-se que daí tenha derivado o termo pelo qual passaram a ser identificados. Ainda assim, grande parte possui um traço fisionómico muito próximo do tipo árabe, de tez morena, cabelo escuro e íris ocular acinzentada, características aliás que podemos encontrar entre as gentes de outras regiões do país que receberam idênticas influências ao longo da História.

Em jeito de conclusão, ensina-nos a História que nela devemos encontrar a explicação para os fenómenos do presente, para além da compreensão do futuro. E, de igual forma, também o estudo do nosso folclore deve obedecer a idêntico entendimento uma vez que não constitui uma realidade estática, antes evolui e se transforma com o decurso do tempo.

 

Um grupo de saloios descansando no Rossio, em Lisboa, no início do século XX. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Saloias a caminho de Lisboa, nos começos do século XX. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

A imagem, data de 1891 e retrata um saloio a vender “pirúns” no Rossio, em Lisboa. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Na antiga Feira do Lumiar, vendendo o gado. (Arquivo Fotográfico da C.M.L.)

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História