Folclore: divagações sobre a sua evolução semântica

 

Pretendendo-se preservar as tradições populares nas suas mais diversas manifestações culturais e artísticas, mormente a música, a dança, o traje, as lendas e provérbios, normal seria que para designar o seu estudo, inventariação e divulgação se recorresse a termos originários da própria língua nacional e não, como é o caso, a uma importação ou empréstimo linguístico.

Com efeito, a adopção do termo folclore constitui um substantivo masculino, de origem inglesa, resultante da acoplagem dos vocábulos folk e lore. Não obstante, embora frequentemente se confunda com etnografia e até com etnologia, a palavra folclore tem a sua correspondente mais directa na Língua portuguesa no termo demopsicologia que respeita ao estudo psicológico de um povo.

Inicialmente apresentado com a grafia folklore, o termo veio a perder a consoante k e acabou definitivamente adoptado, vindo a dar origem a novos vocábulos, como sucede com o substantivo masculino folclorismo, resultante da adição do sufixo ismo ao termo original, pretendendo-se como este substantivo masculino identificar um movimento ou sistema de ideias que preconiza a defesa das tradições populares. E, por inerência, o substantivo folclorista – por adição do sufixo ista – relativo àquele que procura preservar o folclore, por assim dizer um partidário do folclorismo. Não se inscrevem, naturalmente, no contexto linguístico, eventuais vocábulos inventados através da acoplagem com siglas comerciais, remetendo-se tais casos mais para o domínio do marketing.

Por conseguinte, constata-se que a Língua portuguesa possui uma extraordinária capacidade de se enriquecer com novos vocábulos correspondentes a novos signos linguísticos, resultado da evolução cultural e mental de um povo perante novas realidades e ainda no contacto com diferentes culturas.

Inversamente aos anteriores, o adjectivo folclórico não é em regra bem aceite por todos quantos se dedicam à causa do folclore ou seja, os próprios folcloristas. Sucede que, designando originalmente algo relativo ao folclore, o vocábulo registou uma evolução semântica que o levou a adquirir novos significados. Tal como sucedeu com o termo parvo, do latim parvulu que queria dizer pequeno ou insignificante, também o vocábulo folclórico adquiriu novos sentidos tais como berrante, espaventoso, porventura de mau gosto. E, tal como aquele, ao adquirir nova significação, o termo folclórico é frequentemente empregue de forma depreciativa nas mais diversas situações que não respeitam ao folclore propriamente dito.

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Na realidade, nós que ao folclore dedicamos grande parte das nossas vidas no pressuposto de que se deve preservar um rico património cultural que pertence ao povo do qual fazemos parte, não é sem mágoa que ouvimos com regularidade os próprios políticos empregarem os termos folclore e folclórico de forma tão pejorativa e injuriosa que invariavelmente nos soa a insulto e causa frequente indignação. Tanto mais que, enquanto cidadãos, deles esperávamos uma atitude mais culta e respeitadora para com as coisas do povo, a sua própria cultura e identidade.

Mas, temos de compreender e aceitar com naturalidade a evolução semântica pois ela faz parte da evolução da própria Língua portuguesa. E, tal como do folclore se derivou o termo folclórico que passou a adquirir nova significação, muitas outras palavras registaram idêntica evolução semântica como sucede com as que se originaram a partir da palavra política, nomeadamente os termos politicagem, politicalha, politicante, politicão, politicar, politicastro, politicóide, politicomania, politiqueiro, politiquice e politiquismo. Pelo menos, no que respeita à evolução semântica, os que fazem da política o seu ofício e do folclore termo depreciativo para servir de insulto, estão muito bem servidos. E recomendam-se!

Carlos Gomes, Jornalista, Licenciado em História