O Divino Pobrezinho ou o Lavrador da Arada

 

Vindo um lavrador da arada,

Encontrou um pobrezinho.

O pobrezinho lhe disse:

Leva-me no teu carrinho.

Apeou-se o lavrador

E no seu carro o metia,

Levou-o pra sua casa,

P’rá melhor sala seria.

Mandou-lhe fazer a cama

Da melhor roupa que havia:

Por cima, damasco roxo;

Por baixo, cambraia fina.

Mandou-lhe fazer a ceia

Do melhor manjar que tinha.

Sentou-o à sua mesa,

Mas o pobre não comia.

As lágrimas eram tantas

Que pela mesa corriam,

Os suspiros tão profundos

Que até a mesa tremia.

Deitou-o na sua cama,

Mas o pobre não dormia.

Lá pela noite adiante,

O pobrezinho gemia.

Levantou-se o lavrador,

Foi ver o que ele teria.

Deu-lhe o coração um baque,

E como não ficaria!

Achou-o crucificado

Numa cruz de prata fina.

Ó meu Jesus, se eu soubera

Que em minha casa Vos tinha,

Mandara fazer preparos

Do melhor que encontraria.

Cala-te lá, lavrador,

Não fales com fantasia.

No céu te tenho guardada

Cadeira de prata fina,

Tua mulher a teu lado,

Que também o merecia.

 

In “Romanceiro – Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro” (5 vol.) – Joaquim Alves Ferreira