Dialectos e falares em Portugal Continental

 

“O estudo científico dos dialectos portugueses é uma conquista dos finais do século XIX, mas desenvolve-se sobretudo no nosso tempo a partir dos trabalhos de J. Leite de Vasconcelos, o verdadeiro impulsionador da dialectologia portuguesa. A sua terminologia indicava por vezes hesitações de fronteiras entre geografia s sistemas linguísticos, sendo o termo «dialecto» indistintamente usado para designar diferentes realidades; mas nos seus últimos trabalhos, recolhidos nos Opúsculos, aquele filólogo começa a distinguir entre dialecto e falar, terminologia que modernamente tem sido adoptada pela escola da chamada «geografia linguística».

Distingue-se assim dialecto como estrutura linguística, subsidiária de outra, mas sem atingir a categoria de língua, enquanto o falar se caracteriza como variedade expressiva típica de uma região e que não manifesta a coerência interna e os traços distintivos evidenciados pelo dialecto: falar minhoto, falar transmontano, falar beirão, falar do Sul, falar açoriano, falar madeirense, etc. O falar, deste modo, está ligado a características regionais, o que compreende, evidentemente, os falares locais: o falar lisboeta, o falar do Porto, por exemplo.

Segundo esta perspectiva, e em relação ao português europeu, podem individuar-se três dialectos dependentes do sistema leonês, todos localizados em Trás-os-Montes: o riodonorês (ou rionorês), falado em Riodonor, no concelho de Bragança, e hoje mais influenciado pelo português do que pelo espanhol; o guadramilês, falado em Guadramil, no mesmo concelho; e o mirandês, porventura o que cobre uma área mais ampla (a de Miranda do Douro) e que inclui um outro enclave linguístico – o sendinês, variedade de mirandês falada em Sendim, a sul de Miranda. A estes dialectos há a acrescentar o barranquenho, a fala de Barrancos, que é substancialmente uma forma de português com traços andaluzes.

A fronteira linguística, como se vê, transpõe a fronteira política, de um lado e do outro, sobretudo ao norte do Douro, através de uma linha sinuosa que marca a interdependência de comunidades linguísticas hoje em vias de nivelamento por influência dos modernos meios de comunicação. Mais fluída é a fronteira entre os diversos falares, os quais nem sempre correspondem a uma divisão geográfica ou administrativa do país.

Para uma avaliação do estado actual das variedades regionais, são de extrema utilidade os atlas linguísticos, aguardando-se a publicação do Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza, há anos em preparação a partir de inquéritos finalizados, o qual permitirá não só uma classificação dos falares e das suas variantes, estabelecendo as isoglossas ou linhas de demarcação de fenómenos linguísticos perfeitamente diferenciados, mas também uma divisão mais rigorosa e científica da mal conhecida dialectologia portuguesa.”

Fonte: Dicionário Enciclopédico da História de Portugal (adaptado) | Imagem de destaque