Em defesa da preservação dos usos, costumes e tradições

 

A opinião de especialistas em Folclore e Etnografia!

“(…) o folclore que sai do seu âmbito próprio, que são os campos e as aldeias, e exorbita das suas funções próprias, que são as de exprimir a vida e os trabalhos do homem rústico, esse folclore assim posto em evidência e assim utilizado deixa precisamente de ser folclore para se transformar em divertimento banal ou servir de mero cartaz turístico.” (Fernando Lopes-Graça)

 

 

«Dantes, quando ainda não se falava em folclore, a soberania do povo, em matéria de arte, era uma realidade. Não havia estrados com “danças a prémio” nem nos ensurdecera, para todo o sempre, qualquer amplificação sonora. Bailava-se e cantava-se ao ar livre, nos adros, nas eiras e em plena rua, ou em casa, pelo Inverno, ao serão. Um belo dia, porém, surgiram os entendidos e, perante o seu ar reprovador, principiaram a desfilar ranchos, tímidos, contrafeitos e (sobretudo!) receosos de cair no desagrado supremo de quem, para os castigar ou aplaudir, tinha “a faca e o queijo na mão”«. (Pedro Homem de Mello)

 

“Se os nossos compositores de música erudita quiserem levantar o “edifício” da Ópera Portuguesa (sem imitações simiescas de paradigmas estranhos), terão de basear a sua arte nas raízes temáticas das nossas velhas canções, que hoje apenas sobrevivem nalguns ranchos folclóricos mais criteriosos, tantas vezes incompreendidos e menosprezados. E para que ninguém duvide do carinho que eles nos devem merecer, citarei alguns exemplos de grandes compositores estrangeiros que, antes de se lançarem na alta composição, estudaram as canções dos seus respectivos países.” (Mons. Ângelo Minhava)

 

“(…) Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. Se não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros, pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância. Se não o fizermos, daqui a duas gerações podemos ser um povo descaracterizado e profundamente pobre (…)” (Jorge Dias)

 

“Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem vivendo hoje houvesse nascido nos meados do século XIX, lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona – e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer na tradição… Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares…” (José Leite de Vasconcelos)

 

“Um grupo folclórico (ou rancho folclórico, etnográfico) é por inerência da sua constituição uma força ao serviço da investigação, defesa e promoção dos valores patrimoniais da comunidade em que se insere, no campo específico das tradições orais. Orais e não só, na medida em que estas se articulam com registos escritos e materiais. E é a pensar nisso que muitos ranchos folclóricos têm preferido a designação de etnográficos, ampliando assim os objectivos até à descrição atenta das manifestações culturais das populações, a nível regional, sub-regional e local.” (António Magalhães Cabral)

 

“Há necessidade de nunca esquecer que tanto as cantigas como as músicas e as danças não se limitam a determinada região. Embora tenham tido a sua origem em dado local ou aí haja domínio marcante de certas espécies, observa-se larga difusão de terra em terra. Assim, nota-se que o vira se canta e dança do Minho a Lisboa; o malhão e a chula expandem-se pelo Minho, Douro e Beira Litoral; valiosíssimos corais existem em larga escala no Baixo Alentejo e no Minho; o fandango reina todo poderoso no Ribatejo, mas é igualmente querido em todas as províncias; é «dançado de lés a lés», afirma Armando Leça na sua Música Popular Portuguesa. E inúmeros outros exemplos poderiam ser aduzidos.” (Maria Arminda Zaluar Nunes)