Danças Populares Portuguesas – Tomás Ribas

 

“(…) por «danças populares portuguesas» queremos designar as «danças populares portuguesas tradicionais», as quais englobam três categorias: as «danças folclóricas», as «danças populares propriamente ditas» e as «danças popularizadas».) Procurar determinar e designar as mais arcaicas danças populares portuguesas é, obviamente, estultícia, até porque é impossível fazê-lo. Dado que a dança é uma actividade e uma função tão velhas como a própria Humanidade, poderemos dizer que na Península Ibérica se baila desde que nela surgem seres humanos, autóctones ou vindos de qualquer outra região da Terra.(…)” Tomaz Ribas in “Danças Populares Portuguesas”

 

 

Breves notas sobre as Danças Populares Portuguesas de hoje

Bailarico

O bailarico é uma dança popular actual que se baila na região que vai do Alcoa ao Sado, isto é, em toda a região estremenha. Baila-se, sobretudo, nas regiões de Torres Vedras, Caldas da Rainha, Malveira, Sintra e Mafra, pelo que é conhecida pelo nome de «dança saloia». Porém, também no Alentejo, no Ribatejo e no Algarve o dançam.

É o bailarico uma das mais típicas e características danças populares portuguesas. É também uma dança simples e ingénua, se bem que ritmada e muito movimentada. A sua simplicidade e o seu ritmo movimentado são bem característicos da sua pureza e genuinidade portuguesas.

No Ribatejo chamam-lhe bailharico.

Ciranda

A ciranda é uma dança que se divulgou no século passado e vem inserta em vários cancioneiros. Não tem acompanhamento instrumental, pois baila-se apenas ao som de harmónio e com acompanhamento de canto.

Não deve ser uma dança muito antiga entre nós porque o harmónio é um instrumento austríaco que só há um século começou a popularizar-se em Portugal. Trata-se de uma dança que se baila particularmente na Beira Litoral e na região do Norte da Estremadura.

Chula

A chula, ou xula, é uma dança popular portuguesa muito antiga. Gil Vicente refere-se a ela numa das suas peças ou autos teatrais. É uma dança que tem cantador, ou cantadeira, ao desafio, mas o seu estribilho, ou refrão, é só instrumental.

Baila-se a chula – que é uma dança tipicamente nortenha – do Minho à Beira Alta setentrional. Porém, a chula do Alto Douro tem instrumentos especiais e especial maneira de se bailar. Tal como o malhão, a cana-verde e o vira, a chula pode acompanhar-se apenas pelo ritmar da viola ramaldeira e, tal como aquelas, que são danças típicas do Minho e do Douro, pode ser acompanhada pela «ronda minhota» (espécie de pequena orquestra campesina composta de clarinete, rabeca, harmónica, cavaquinho, viola, violão, bombo e ferrinhos) ou pela «festada duriense» (que é constituída pelos mesmos instrumentos, menos o clarinete, que é substituído pelas canas).

Corridinho

O corridinho, que também se baila em algumas terras do Ribatejo e do Alentejo, é, sobretudo, uma dança algarvia: o Algarve é a sua verdadeira pátria.

O corridinho é uma dança antiga, porém, não muito arcaica: reflecte aspectos de danças citadinas adaptadas pelo povo, pois que é, no seu aspecto geral, uma dança que se baila ao ritmo da polca-galope. Ora, tanto a polca como o galope são danças estrangeiras citadinas do século passado.

O corridinho é bailado ao som do fole ou flaita, isto é, da concertina e consta de duas partes: o «corrido» propriamente dito e o «rodado», que é orientado em sentido inverso ao do corrido. Quando, porém, uma segunda parte da moda é mais mexida e o parceiro é de feição, abandonam-se os passos conhecidos e o par rodopia sempre no mesmo lugar, num passo especial a que se dá o nome de «escovinha».

Fandango

Do ponto de vista musical, o fandango é semelhante ao vira, porém, baila-se de diferente maneira; de resto, o actual vira é possivelmente o antigo fandango agora dançado em cruz.

Dança que nos veio de Espanha, o fandango enraizou-se em Portugal, onde é bailado em quase todo o país desde há muito. O Prof. Armando Leça, que estudou com particular atenção as canções e as danças populares portuguesas, dá o fandango como dança que ainda hoje se baila no Douro Litoral, no Minho, em Trás-os-Montes (terras mirandesas), na Beira Litoral, na Beira Alta, na Beira Baixa, na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Contudo, as regiões onde o fandango é mais bailado e goza de maior preferência do povo são o Ribatejo, as raias minhota e da Beira Baixa (Castelo Rodrigo e Idanha-a-Nova) e as terras interiores de Beira Litoral (Pombal, Ansião, Figueiró dos Vinhos, etc).

Velha dança espanhola, o fandango é, também, uma dança portuguesa muito antiga. Bocage refere-se a ela e o escritor inglês Twiss, que visitou o nosso país em 1772, diz que viu «o fandango dançado em Portugal com grande galanteria e muita expressão». E Gil Vicente usa, às vezes, o termo «esfandangado».

No Ribatejo, na Beira Litoral e nas terras raianas do Minho e da Beira Baixa, bem como em algumas regiões do Alentejo e da fronteira algarvia, é onde melhor se baila o fandango. No Ribatejo bailam-no ao som de harmónica (gaita-de-beiços) ou harmónio (gaita-de-foles); já, contudo, em Ferreira do Zêzere, na serra de Tomar, em Mação e em Borba o bailam ao som de guitarra. Nas terras mirandesas (Trás-os-Montes) bailam-no em roda.

Há uma dança que é uma miscelânea de vira e fandango: o vira afandangado. O verdadeiro vira afandangado parece ser o do Ribatejo, onde, muitas vezes, o bailam em cima de mesas. O vira afandangado do Minho – vira galego – é de feição vocal e baila-se aos pares, de roda.

A voga do fandango entre os portugueses está de tal maneira arreigada no seu gosto que o levaram para o Brasil. Nos estados do Nordeste brasileiro baila-se o fandango; porém, nessas regiões não lhe dão tal nome, mas sim outros nomes que bem denotam que foram os portugueses que para lá levaram essa dança: «bailado dos marujos», «dança dos marujos», «marujada», «chegança dos marujos» ou «barca». No Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul (terras do Brasil), a palavra «fandango» quer dizer «festa», «baile» ou, simplesmente, «reunião onde se dança».