Sobre a Cultura Material | Artesanato

 

A relação do artesão – enquanto criador – com o objecto que cria, passa fundamentalmente pelas suas mãos. A mão, tem aqui um papel preponderante, porque através do gesto ela cria e dá forma e estética ao objecto. A mão que constrói, a mão que modifica, a mão que amplia e diminui, a mão que é dócil ou brusca. A mão que através de gestos corporiza as nossas sensações e emoções. A mão é pois, mente e alma.

Também a visão tem aqui um papel preponderante, mas não é mais ou menos importante que o tacto. A propósito do trabalho de oleiro, Baptista Bastos [3] numa incursão que fez a uma olaria em Lisboa na década de 80, ressalta essa relação entre os olhos e as mãos, que o artesão interpreta, quando escreve «nove horas de trabalho quotidiano, uma atenção que se não pode deixar fluir em qualquer precalço, no mais ténue dos incidentes. Olhos e mãos, mãos e olhos.» (1988:112)

Depois, vem a experiência táctil de quem gosta ou aprecia um objecto, ou de quem utiliza o utensílio. Não é por acaso que a sabedoria popular diz que às vezes temos os olhos nas mãos. Não é que queiramos observar algo com as mãos, o que queremos de facto é sentir esse objecto e por isso o apelo ao toque por vezes é irresistível e incontrolável. Não são só as crianças que gostam de tocar. Os adultos também gostam de o fazer, porque a emoção do táctil é muito diferente da visual. É sobretudo, bastante mais poderosa.


Foto1 – Artesão numa das fases da construção de um barril [4]

Foto 2 – Artesão executando cestos de vindima [5]

A experiência táctil, é aqui muito forte e de imediato o cérebro transmite informação sensorial acerca desse momento tão particular. Na verdade, só começamos por identificar, sensibilizar, amar ou detestar um objecto, quando nesse processo interagimos sensorialmente com o mesmo.

Sensação é pois emoção. Os objectos ou artefactos, são estímulos para as nossas emoções. Elas tomam corpo e actuam quando «provocadas» por algo que pode ser interior ou exterior a nós mesmos, isto é, no caso do artesão, esses estímulos têm início durante a processo mental de concepção de um determinado projecto, enquanto que no caso dos compradores ou utilizadores de uma terminada peça, ou utensílio, as emoções e reacções surgem apenas quando o objecto já existe. «(…) as emoções nunca dependem somente de como é feito o mundo, pela simples razão de que (…), elas fazem esse mesmo mundo.» (Manghi,1999:5) . No entanto, este processo emocional entre o artesão ou o artista e o público, não é um processo descontinuado, ou seja, não funciona como: agora sente o artesão e posteriormente sente o comprador, o público ou a comunidade. As emoções estão em todos nós ao mesmo tempo e como afirma Sérgio Manghi, «os sinais emocionais não indicam apenas processos internos de um sujeito (…). Às vezes indicam configurações externas desse sujeito (…). As emoções não estão primeiro em mim e por conseguinte entre nós. Elas estão em mim e em nós.» (ibid)

Os objectos «jogam» também com o tempo e o espaço. No primeiro caso, porque se transmite de geração em geração e portanto a característica emocional trespassa a fronteira temporal. No segundo caso, o «jogo» localiza-se ao nível da movimentação dos objectos, não só entre os membros da comunidade, como entre elementos exteriores a essa mesma comunidade. O Turismo é um dos exemplos mais tipificadores desta movimentação. Rosa Ramalho uma das maiores barritas portuguesas confessou certo dia ao jornalista Baptista-Bastos «temos de trabalhar muito para atender às encomendas (…). O turismo fez-nos ganhar um dinheiro muito bom. O turismo é uma das grandes coisas inventadas no nosso Portugal.» (Bastos, 1988:107)

Os artefactos são pois, elementos viajadores e que transportam o artesão, a actividade profissional, a comunidade e o País de origem, para inúmeros e diversos lugares.

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Mas os artefactos não definem somente uma região, uma comunidade, um povo ou um País. Um mesmo artefacto, objecto ou actividade profissional pode ser elemento caracterizador de mais de uma região dentro ou fora das mesmas fronteiras físicas. O que acontece nestas situações é que esses artefactos tomam por vezes formas ou funções diferentes nos diversos lugares onde existem. Digamos que, através da difusão cultural um mesmo objecto pode possuir inúmeras funções, cores, formas e até atribuições simbólicas. Há por conseguinte um reinventar, à medida que esses artefactos se «propagam» de região para região. Nesses processos de readaptação, os artefactos adquirem novas características. E as emoções que eles transmitem, não só a quem os executa, mas também a quem os adquire ou simplesmente admira, são igualmente diferentes. Muitas vezes essas emoções estão relacionadas com a carga simbólica e estatuto social que certo artefacto tem na comunidade que o manuseia.

Podem de facto os objectos ou os ofícios tradicionais traduzirem ou caracterizarem a identidade ou identidades [6] de uma comunidade ou de um povo?

Certamente que sim e pela razão mais simples: porque o objecto é sempre fruto de quem o criou e de quem lhe atribui determinada função social. Pela forma, textura, cor, aspectos decorativos e função, podemos de facto identificar a sociedade de onde o artefacto é originário. Apesar da tentativa de homogeneização das sociedades, podemos ainda dizer que os artefactos podem ser caracterizadores das nossas identidades, não só pela matéria-prima que os constituem, mas principalmente pela função que estes têm na nossa sociedade.

É claro, que dada a mobilidade dos povos e por conseguinte dos objectos que estes transportam consigo, um mesmo artefacto pode ter funções completamente diferentes em diferentes comunidades ou sociedades, independentemente da forma, textura ou cor serem idênticas em todas elas.

Concluo, afirmando que as emoções conduzem a vida de todos nós e que na criação cultural, são presença constante. A memória social é o “armário” das nossas aprendizagens e vivências culturais e a Cultura Material nada mais é do que uma infinita quantidade de “prateleiras” desse mesmo “armário”, onde as portas estão sempre entreabertas permitindo a quem chega, recriar, reinventar, acrescentar e também alterar.

A relação humana com os objectos e /ou artefactos é uma realidade incontestável e incontornável. Não podemos viver sem eles. O objecto é elemento identificador e caracterizador de grupos e comunidades e com eles estabelecemos uma relação tão próxima, quanto a que temos com os outros seres humanos com quem convivemos diariamente.

As mãos são a alma e dão corpo ao objecto, mas é na mente do artesão, artista ou criador que este começa a ter forma. Durante todo o processo criativo e executório dos objectos as emoções são presença constante e essa emocionalidade é igualmente vivida e sentida por quem adquire, recebe, ou simplesmente contempla determinado artefacto, porque de uma forma geral este interfere com as nossas percepções sensoriais, isto é, os nossos mais básicos sentidos.

Por tudo isto, aconselha-se vivamente que cada um de nós olhe, toque, cheire e ouça a produção material que nos rodeia e que constrói o nosso mundo, ou mundos.

Como foi frisado anteriormente, os objectos são a imortalidade das nossas histórias, das nossas vivências sócio-culturais e, para além disso, explicam e justificam a forma de estar em sociedade de cada um dos povos que representam.

por Sandra Nogueira

 

NOTAS

[1]  A questão da criação, invenção e autenticidade dos objectos é à partida mais complexa e controversa do que se possa imaginar. É difícil provar que elementos culturais são ou não são autênticos – e aqui o autêntico diz respeito à origem desse mesmo objecto -. Na minha opinião já nada se inventa, mas pelo contrário tudo se reiventa e tudo se misceniza. Reiventar algo significa dar vida a alguma coisa com existência anterior. A quase “desesperada” busca das tradições passadas que as nossas sociedades actualmente preconizam, dão origem a recriações culturais que se tentam ser o mais autênticas possível, isto é, o mais próximas possível ao objecto que se julga originário e por conseguinte caracterizador da vivência cultural daquele grupo ou comunidade. A Globalização é em parte muito responsável pela “corrida” em busca desse EU existente nas nossas sociedades. À standarização dos nossos padrões de vida económica e social, as sociedades respondem com a sua diversificação cultural. Somos diferentes, porque as nossas histórias e percursos sócio-culturais são diferentes. A diferença e a riqueza cultural da Humanidade assenta precisamente na diversidade e nos inúmeros sincretismos que ela possui.

[2]  A circa artesanal é antes de mais um acto criativo, cognitivo, mental. Depois desse «projecto» artesanal surgir na mente do seu criador, ele é transposto para um qualquer material que lhe dará corpo. O acto de tocar, sentir a textura, as formas, visualizar a cor e sentir o odor desse mesmo material, é sobretudo uma vivência situada ao nível do foro sensorial.

[3] Baptista-Bastos é um dos escritores de referência no panorama da Literatura contemporânea Portuguesa. O jornalista-escritor tem inúmeras obras publicadas e os excertos mencionados neste artigo, são do livro As Palavras dos Outros, que esteve durante anos esgotado.

[4] Foto da autoria de Sandra Nogueira e retirada da publicação “A tanoaria no Concelho do Cartaxo-estudo etno-tecnológico da actividade” in Programa Nacional de Bolsas de Investigação para Jovens Historiadores e Antropólogos.

[5] Foto da responsabilidade de Jorge Blanco, retirada a partir dos desenhos do antropólogo Fernando Galhano. Exposição da autoria de Sandra Nogueira intitulada, “O Cesto de Vindima – a mestria da tradição”, integrada no ciclo Tecnologias Tradicionais Portuguesas do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Azambuja, Portugal, Fev. 2001

[6] Faço aqui uma chamada de atenção para o termo identidade, na medida em que eu defendo que devemos ter algum cuidado no uso desta terminologia. Tal como a cultura já não se cria, mas sim recria, uma vez que os fenómenos culturais são maioritariamente fruto de difusão e transformação cultural, com a identidade acontece o mesmo. Os contactos, a miscenização, a mestiçagem e/ou os sincretismos, deram origem a identidades em detrimento de identidade. Todos nós somos fruto de muitos valores, crenças e tradições que num determinado tempo se juntam e que posteriormente se vão transformando, devido à interacção planetária do nosso Mundo.

Bibliografia

BASTOS, Baptista. (1988). As Palavras dos Outros, Colecção ²Dias de Prosa², 3ª Edição, Lisboa, Edição O Jornal

BENEDICT, Ruth. (S/d). Padrões de Cultura, “Colecção Vida e Cultura”, nº 58, Lisboa, Edição Livros do Brasil

CLASSEN, Constance; HOWES, David; SYNNOTT, Anthony. (1994). Aroma- the culture history of smell, N. York, Routledge

CÂMARA MUNICIPAL DE AZAMBUJ,. (2001). “A Gastronomia na Antropologia Sensorial” in  A Matança do Porco – o sabor da festa, catálogo da 3ª exposição do ciclo Tecnologias Tradicionais Portuguesas, escrito por Sandra Nogueira, Azambuja, pág.21,22

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