Costumes e tradições durante o ciclo natalício   

 

«Noite tradicionalmente fria, árvores descarnadas erguendo os braços para o céu, campos desertos, caminhos sem viandantes, a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que a todos, cristãos e ateus, crentes e livres-pensadores, faz reunir, vindos das maiores distâncias, no aconchego e convívio santo da família.

E, o nosso, povo, mantenedor fiel de velhas e lindas tradições, para que não tenham frio mesmo os mais pobrezinhos, vai ainda hoje colocar no adro da igreja grandes troncos de árvores que, em honra do Menino, arderão e morrerão em vivo braseiro durante toda a noite e dia de Natal(1)

Autos, entremezes e vilancicos

A origem dos autos de Natal perde-se no tempo e crê-se que as primeiras representações deste género teatral foram impulsionadas pela própria Igreja para melhor divulgar as suas doutrinas. Em Portugal, o dramaturgo que maiores êxitos alcançou foi Gil Vicente, sendo ainda hoje as suas peças muito apreciadas e procuradas pelo público. Muitos destes autos tem um carácter estritamente popular e por esse país fora ainda se representam anualmente.

Recorde-se, por exemplo, em terras de Viana o Auto de Floripes, felizmente já estudado por especialistas, e que constitui um verdadeiro atractivo turístico nesta quadra natalícia.

Infelizmente, os grupos de teatro amador espalhados, por esse país fora, não costumam aproveitar esta fonte de inesgotável riqueza etnográfica, para darem a conhecer a nossa juventude algumas das tradições mais genuínas do nosso povo.

Quanto aos entremezes, que eram curtas representações teatrais de espírito jocoso ou burlesco, são vulgarmente designadas por farsas, género que Gil Vicente igualmente cultivou no decurso da sua obra. Presentemente, os entremezes raramente os representam.

Finalmente, os vilancicos são madrigais que se cantavam nas igrejas por ocasião do Natal e dos Santos Populares, mas que hoje caíram totalmente no esquecimento e poucas são as localidades em que ainda se conservam.

Enfim, de um modo geral, procurando ser breve e sucinto, penso que sobre as tradições do Natal português muito mais haverá que dizer se bem que cairíamos no aprofundamento das questões levantadas o que só contribuiria para a saturação do leitor.

Os cortejos de Reis Magos

Esta tradição dos cortejos dedicados ao tema bíblico da adoração dos Reis Magos tem vindo progressivamente a desaparecer, se bem que em Coimbra e na aldeia de Tentúgal ainda se conserve na plenitude da sua beleza etnográfica.

Assim, em Coimbra, desfilam bandas de música, acompanhadas de crianças de batina vermelha e cota de renda branca, transportando consigo turíbulos de incenso e oferendas para o Menino Jesus.

Seguem-se os homens que ostentam bandeiras engalanadas e archotes em ignição, como que a abrirem caminho aos Reis Magos, cujas roupagens sumptuosas e brilhantes denunciam a presença real. Nesta conformidade percorrem as ruas da cidade até à Igreja de S. Bartolomeu, em cujo adro se representa um auto popular alusivo ao carácter festivo da própria comemoração. Por fim, procede-se ao leilão das oferendas, após o que o pároco dá o Menino a beijar.

Na pacata localidade de Tentúgal, o cortejo é precedido por numerosos gaiteiros e clarins que duma forma ruidosa e alegre se anunciam a aproximação do desfile. Este é encabeçado por um arauto, logo seguido por uma estrela brilhante e majestosa alusiva àquela que guiou os Reis Magos até Belém, e um pouco mais atrás desfilam as três altezas reais com as respectivas oferendas de ouro, incenso e mirra, que se fazem acompanhar pelos seus pajens e pelo numeroso público presente.

Após percorrerem as ruas da povoação dirigem-se à aldeia de Ribeira de Frades, de onde regressam a Tentúgal para confraternizarem em simultâneo com o povo de ambas as localidades.

No fundo, trata-se de um cortejo de carácter religioso, mas nem por isso menos importante do ponto de vista etnográfico, que merece ser preservado e minuciosamente estudado.

O Presépio

A origem dos presépios remonta a São Francisco de Assis, que teve a genial ideia de fazer reviver, através da arte popular (2), as cenas bíblicas directamente relacionadas com o nascimento de Cristo.

Em si mesmos, os presépios constituem uma lição viva de fraternidade, amor e humildade,

Compõem o presépio, a Sagrada Família, os Reis Magos e a respectiva cascata com a manjedoura e os animais que aqueceram o Menino. No entanto, o gosto popular acentuou este enternecedor quadro litúrgico com o acrescentamento de centenas de outras figuras da sua própria existência socioeconómica, como é o caso dos gaiteiros, moleiros, moinhos, açougueiros, pastores, ferreiros, sapateiros, sem esquecer naturalmente a tradicional cena da matança do porco. Aliás, convêm lembrar que o nosso país é tradicionalmente ceramista, rico em valores artísticos, alguns deles florescendo em grupo, como são exemplo as escolas de Lisboa e de Mafra. Com especial relevo para os discípulos de Machado de Castro. Na Estremadura as igrejas locais pugnavam pela realização de maravilhosos presépios e rivalizavam com os de Coimbra, Aveiro, Viseu e Lamego, igualmente notáveis pela majestosidade e profusão das suas figuras.

Armados nas igrejas, expostos admiração e culto dos povos, os presépios funcionam ainda hoje como principal atractivo religioso para a Missa do Galo. Pena é que nas residências particulares se vá cedendo à importação profana das escandinavas árvores de Natal, que nada tem de católico nem de latino. O mesmo se verifica com essa figura pouco significativa que é O Pai Natal. Igualmente originário das regiões rígidas do Norte da Europa.

A Missa do Galo

Atendendo a que se trata duma celebração religiosa, não se radicalizam quaisquer heterogenias regionais. No entanto, pela circunstância de só se realizar nesta quadra do ano, não podemos deixar de salientar a sua singularidade litúrgica. Mas como especial atractivo registe-se o desvelamento do Presépio, que até aí permanecia envolto numa cortina para dar ao acto um carácter mais solene.

O pároco, após dar a conhecer a ingénua composição de figuras de barro, celebra a missa enquanto o povo entoa cânticos de Natal.

Por fim, o pároco dá o Menino Jesus a beijar aos fiéis, que silenciosamente lhe pedem mercês e protecção.

Como nota curiosa, é saliente nesta altura a boa disposição de todos os presentes alguns deles já bem bebidos e mais bem comidos.

A Ceia Grande ou Consoada

Normalmente designada por festa da família, por se reunir à mesa a maioria dos familiares, era costume realizar-se a consoada depois da Missa do Galo. Contudo, hoje, essa tradição já se vai perdendo devido ao desuso das antigas ceias. E na composição das ementas é que se constatam algumas heterogenias de carácter antropológico resultantes das assimetrias sociogeográficas.

Assim, enquanto no Minho predomina o bacalhau cozido com batatas, ovos e tenros, “tronchos” de “coivão” da horta, em Trás-os-Montes, no Centro Litoral e no Alentejo assa-se o leitão ou come-se um lauto assado de porco, regado com bom vinho novo.

Por sua vez, na Estremadura, no Ribatejo e nas ricas casas beirãs, come-se o tradicional peru recheado de acepipes saborosos, enquanto no Algarve nos deliciamos com o lendário pitéu da carne de porco com amêijoas e linguiça assada, prato este já caído em desuso mercê da aculturação turística do peru.

Paralelamente ao “presigo”, as mesas, os armários e escaparates, estão repletos de doçarias de toda a espécie, variando igualmente de região para região. Por exemplo, no Minho os «mexidos» arabescados com canela da Índia, assumem posição de destaque, logo acompanhados pelas deliciosas rabanadas ensopadas no mel doirado, pelo leite-creme crestado com açúcar caramelizado, pelos pratos de aletria, pelo pão-de-ló e bolo-rei, este ultimo já importado desde há longa data.

Nas Beiras confeccionam-se filhós estendidas, fatias-douradas, coscorões, bilhós, pães-leves, merendas, bicas e arroz-doce. No Douro, comem-se rabanadas, formigos, mexidos, sopas secas, ovos queimados, sonhos, arroz-doce, aletria, figos, uvas-passas e vinho quente. No Ribatejo tem especial relevo o bolo-podre, as broas, os bolos de gema e as azevias compostas por grão, arroz-doce e filhós.

No Alentejo saboreiam-se as filhós, azevias, sonhos, borrachos e os nogados, à base de nozes, amêndoas ou pinhões misturados com mel. Finalmente, no Algarve, apreciam-se doirados fritos escorrendo mel, filhós, bolinhóis, empanadilhas de batata-doce, figos, pinhões e nogado.

Como facilmente se depreende, é ao nível da doçaria que as diferenças se acentuam, se bem que a gastronomia seja igualmente um indício da personalidade do nosso povo. Mas passemos adiante.

As Janeiras e os Reis

O cantar das Janeiras e o domínio, quiçá o mais rico, do Cancioneiro Popular Português. A sua origem remonta igualmente ao tempo do paganismo em imitação das Saturnais Romanas que, ao converterem-se à religião crista, assumiram foros da maior originalidade.

No ancestral cantar das Janeiras está contido todo o espírito popular, a criatividade; a beleza, o encómio e o escárnio. Muito embora neste domínio se acentuem as heterogenias regionais, é, no entanto, comum a todo o País a composição de pequenos grupos corais, normalmente acompanhados de instrumentos musicais, que percorrem os mais variados lugares da sua freguesia ou vila, batendo às portas e entoando loas religiosas à mistura com quadras de fino gosto popular. O objectivo era serem bem recebidos pelos moradores que lhes ofereciam doces e vinho. Mas, caso não correspondessem a contento, eram “mimoseados” com canções de chacota, por vezes achincalhantes, e não raras vezes culminadas por cenas bem tristes e desnecessárias. As esmolas recebidas, em géneros, guloseimas ou dinheiro, eram em certas regiões destinadas à ceia ou festa do grupo, enquanto noutras paragens revertiam a favor das almas do Purgatório. No Algarve são bem conhecidas as tradicionais charolas que na orla marítima do Sotavento ainda se mantêm com o mesmo fulgor de há dezenas de anos atrás.

A recolha deste riquíssimo espólio da nossa literatura oral, foi, em parte, compilado por José Leite de Vasconcelos, Ataíde Oliveira e muitos antropólogos, amadores ou profissionais, que percorreram o País de lés-a-lés.

A queima do madeiro ou do cepo

Em praticamente toldas as províncias do País se verifica a tradição do fogo da lareira familiar, alimentado por um enorme toro de madeira, que no Minho tem o nome de Canhoto, enquanto nas restantes regiões lhe chamam madeiro ou cepo.

Conforme a tradição, é preferível que o cepo seja de oliveira, árvore da paz, por ser dessa madeira a cruz de Cristo. Por outro lado, associam-se-lhe tradições profanas, pois que quanto mais grosso ele fosse mais gordo seria o porco para a matança do ano.

Além disso, também se lhe atribuem poderes sobrenaturais, pois que os restos que não arderem serão guardados para com eles se preservar o lar das trovoadas e outras iras divinas. E para provar esta regra muitas lendas dramáticas se narram contra aqueles que violam a tradição e a crença do povo.

No fundo, a incineração do madeiro ou cepo não é mais do que a revitalização do fogo simbólico originário do rito pagão, que nos adros das igrejas e capelas crepita, abrasivo e luminoso, por entre os grupos de jovens que lhe dedicam inúmeras quadras do vasto cancioneiro natalino.

José Carlos Vilhena Mesquita

  1. In “Etnografia da Beira” – Jaime Lopes Dias
  2. No século XIII, mais precisamente no ano de 1223, S. Francisco de Assis decidiu celebrar a missa da véspera de Natal com os cidadãos de Assis de forma diferente. Assim, esta missa, em vez de ser celebrada no interior de uma igreja, foi celebrada numa gruta, que se situava na floresta de Greccio, localizada perto da cidade. S. Francisco transportou para essa gruta um boi e um burro reais e feno, para além disto também colocou na gruta as imagens do Menino Jesus, da Virgem Maria e de S. José.