Cavaquinho – Instrumentos musicais tradicionais

 

Os autores brasileiros, em geral, Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, Renato Almeida, etc., consideram unanimemente o cavaquinho brasileiro de origem portuguesa, e Câmara Cascudo fala mesmo concretamente, a esse respeito, na ilha da Madeira.

De uma maneira geral portanto, ao instrumento francamente popular, minhoto (e, originariamente, coimbrão), que se toca de rasgado, corresponde o velho tipo de braço raso e com doze trastos; enquanto que aos instrumentos de carácter citadino e burguês, de Lisboa, Algarve e Madeira – portanto menos presos à tradição -, que se toca de pontiado, corresponde o tipo de braço em ressalto, e dezassete trastos, que parece ter sofrido influências desses instrumentos mais evoluídos, violão, guitarra, ou banjolim.

O cavaquinho brasileiro, embora popular, é deste último tipo; mas vimos que ele é usado sobretudo pêlos estratos populares urbanos. Esta regra não é porém geral: o braguinha rural da Madeira, acentuadamente popular, é, a despeito disso, morfologicamente idêntico ao urbano.

Finalmente, nas ilhas Hawai existe um instrumento igual ao cavaquinho – o «ukulele» -, que parece, na verdade, ter sido para ali levado pelos portugueses. Como o nosso cavaquinho, o «ukulele» havaiano tem quatro cordas e a mesma forma geral do cavaquinho; certos violeiros fazem-no com o braço em ressalto e dezassete trastos, como a generalidade dos cordofones desta família, e como o cavaquinho de Lisboa, da Madeira e do Brasil; mas há «ukuleles» de fabrico inglês do tipo do cavaquinho minhoto, de braço raso com tampo e apenas 12 trastos. A sua afinação natural é, do grave para o agudo, sol-dó-mi-lá (ou lá-ré-fá sustenido-si, ou ainda ré-sol-si-mi, como indicam certos manuais ingleses). Carlos Santos e Eduardo Pereira referem-se à divulgação do braguinha por todo o mundo, graças ao turismo e ao cinema, e sobretudo à exportação e à emigração dos colonos ilhéus para as Américas, do Norte e do Sul, ilhas Sandwich, etc.; citam mesmo alguns dos primeiros exportadores que, nos princípios deste século, os enviaram, a pedido, para Barbados, Demerara e Trindad.

De facto, o cavaquinho, ou braguinha, foi introduzido em Hawai por um madeirense de nome João Fernandes, nascido na Madeira em 1854, e que foi da sua ilha para Honoluiu no barco à vela «Ravenscrag» num continente de emigrantes – 419 pessoas, incluindo crianças -, com destino às plantações de açúcar, numa viagem pela rota do cabo Hom que demorou quatro meses e vinte e dois dias. Entre esses emigrantes vinham cinco homens que ficaram ligados à história da introdução do cavaquinho em Hawai: dois bons tocadores, o mencionado João Fernandes (que tocava também rajão e viola) e José LUÍS Correia; e três construtores, Manuel Nunes, Augusto Dias, e José do Espírito Santo.

O «Ravenscrag» chega a Honoluiu a 23 de Agosto de 1879, e José Fernandes (segundo um relato feito à revista Paradise of the Pacific, de Janeiro de 1922), ao desembarcar, trazia na mão um braguinha, pertencente a um outro emigrante também passageiro do «Ravenscrag», João Soares da Silva, que porém não sabia tocar e o emprestara a João Fernandes para que este entretivesse os demais companheiros na longa viagem até Hawai. Os hawaianos, quando ouviram João Fernandes tocar o pequeno instrumento, ficaram encantados, e deram-lhe logo o nome de «ukulele», que significa «pulga saltadora», figurando o modo peculiar como é tocado. Depois de instalados na ilha, seguidamente, todos queriam que João Fernandes tocasse, o que ele fazia gostosamente – em danças, festas, serenatas, etc., tendo depois formado um conjunto com Augusto Dias e João Luís Correia. Tocou assim para o rei Kalakaua, em especial na festa do seu aniversário, para a rainha Emma e a rainha Liliuokalani, no palácio de Ilakla e no pavilhão de Verão, de lolani, que era um centro de música, dança e cultura.

O «ukulele» toma-se extremamente popular em Honolulu e Manuel Nunes, na fábrica e loja de móveis que abrira na King Street, passou a construir esses instrumentos, que não sabia tocar, mas que passava a João Fernandes para que este tocasse: e as pessoas reuniam-se à porta da sua oficina para o ouvirem. Com o tempo os hawaianos aperceberam-se de que o instrumento não era difícil de tocar, e começaram a comprar os exemplares ali construídos, cujo preço era então de 5 dólares.

Esta actividade de Manuel Nunes – que na tradição oral da sua família, desde então radicada em Honolulu, se iniciou logo a seguir à sua chegada – está documentada desde 1884; na mesma altura. Augusto Dias abre, pelo seu lado, loja de fabrico e venda de «ukuleles»; e o mesmo faz José do Espírito Santo em 1888. Estes três primeiros violeiros passaram a utilizar as madeiras locais de kou e koa, com as quais construíram instrumentos de muito boa qualidade.

Manuel Nunes deixou descendentes em Hawai e um seu bisneto, o senhor Leslie Nunes, grande cultor do «ukulele» e autor de um pequeno trabalho sobre as suas origens, e a quem devemos os informes que aqui utilizamos, julga que é o seu bisavô quem está na origem da sua difusão nessas ilhas, e seguidamente nos Estados Unidos. Nunes é o nome de família dos mais famosos construtores madeirenses de instrumentos de corda, nomeadamente Octaviano João Nunes (que ofereceu um braguinha da sua autoria à imperatriz Elizabeth da Áustria, que se encontra no Museu de Viena), e seu sobrinho João Nunes Diabinho». Segundo nos informou um sobrinho deste último o Senhor Bartolomeu de Abreu, nem um nem outro daqueles construtores acompanhou porém os seus conterrâneos no referido movimento emigratório, nem estiveram nunca em Hawai ou nos Estados Unidos. Restaria averiguar se o Senhor Manuel Nunes, que foi para Hawai, e que, pelo que vemos, foi também construtor de cavaquinhos, pertenceria à estirpe dos velhos violeiros Nunes do Funchal.

O cavaquinho existe igualmente em Cabo verde, num formato maior do que o do instrumento em Portugal, com escala em ressalto até à boca, e dezasseis trastos, e ligado a formas tradicionais da música local.

Será o cavaquinho uma espécie que teve outrora carácter de grande generalidade no País e que se foi extinguindo, subsistindo apenas em manchas dispersas de maior ou menor vulto e importância em relação às formas musicais locais? Ou de uma espécie fixada entre nós primordialmente no Minho, donde teria irradiado directamente ou indirectamente para as, ou algumas das, outras partes onde hoje aparece – Coimbra, Lisboa, Algarve, Madeira, Açores, Cabo Verde e Brasil -, encontrando diversa aceitação conforme os casos? Jorge Dias parece inclinar-se para esta segunda hipótese genérica; mas, mais concretamente, considerando o carácter diverso que o instrumento apresenta no Minho e no Algarve, opina que ele foi levado para o Algarve por algarvios de regresso da Madeira ou do Brasil – para onde, de resto, foi por sua vez certamente levado por gente minhota. E julgamos que o mesmo se pode entender em relação ao caso lisboeta.

Desse modo, a partir da província nortenha, o cavaquinho ter-se-ia difundido na Madeira pela via do emigrante minhoto. Longe do seu foco de origem, e por isso menos preso à sua tradição mais castiça, modifica a sua forma por influências de outras espécies ali existentes e mais evoluídas, e às quais ele se teria pouco a pouco associado; e ao mesmo tempo que conserva o seu carácter popular, adquire na cidade do Funchal um novo status mais elevado.

E é assim que ele regressa ao Continente, Algarve e Lisboa, em mãos de gentes dessas áreas que o conhecem ali só sob esse aspecto. O mesmo se pode ter passado com o Brasil, embora, neste caso, sejam também de admitir relações directas entre a Madeira e esse país.

Leme Berthe menciona ainda um outro tipo deste instrumento, que ocorre na Indonésia – o ukélélé, ou kerontjong -, como acompanhante na orquestra que leva o mesmo nome de kerontjong, a par de uma viola grande (guitarre), um violoncelo ou contrabaixo, e um alto (viole). Esta orquestra corresponde a um género musical indonésio que surge nos começos do século XVI, por contacto com a música portuguesa, influenciada, conforme as regiões, pêlos estilos tradicionais, como o gamelan. Na Madeira, além do braguinha, existe outro cordofone da mesma família – o rajão – de feitio igual ao dele e ao da viola, mas de um tamanho intermédio – cerca de 66 cm de comprimento (dos quais 32 na caixa harmónica) por 21 de largura —, com dezassete trastos e, normalmente, cinco cordas, ora todas de «arame» ora com as primeiras e quarta (toeira) de «arame» (N. ° 10 ou 8, e 4 respectivamente), as segundas e terceiras de tripa ou de bordão – afinando, do grave para o agudo, ré-sol-dó (baixo)-mi-lá) ou mi-Ia-ré baixo-fá sustenido-si); instrumento acompanhador, toca-se como o braguinha, rasgando, igualmente com rufos de cima para baixo, dos indicador, médio e anelar da mão direita, alterando com outros, de baixo para cima, do polegar. Carlos Santos e Eduardo Pereira consideram este instrumento de invenção madeirense, imitação do violão, em tamanho menor. Contudo, vimos no Regimento dos Violeiros de Guimarães, de 1719, que aí se construíram «machinhos» de cinco cordas (além de outros de quatro, que correspondem aos actuais), sendo por isso de admitir que tenha havido no continente um tipo maior que corresponderia porventura ao cavaco (mencionado por vários autores), depois desaparecido, e que, levado para a Madeira, ali substitui, tendo certamente modificado o seu tipo originário, no que se refere à forma do braço e número de trastos, por influência certamente do violão, difundido e popularizado nos princípios do século XIX, e que tem essas características. E esta hipótese parece ser reforçada ainda com a consideração da afinação do rajão, idêntica à de outro instrumento espanhol da família das guitarras de cinco cordas – o guitarro andaluz -, antecessor presumível do cavaco – ou, seja, esse machete de cinco cordas do Regimento de 1719. Acresce que a Enciclopédia Universal Espasa alude a um cavaco dos portugueses, que é como um cavaquinho de maiores dimensões; e o referido Senhor Leslie Nunes fala num outro instrumento hawaiano de origem portuguesa – o taro-patch -, como um violão pequeno, de cinco cordas (e em certos casos quatro), que pelas suas dimensões, se relacionaria com o rajão madeirense e que foi difundido naquelas ilhas pelas mesmas pessoas que para lá levaram o braguinha, e na ocasião que atrás relatamos. Em resumo, pois, conheceram-se em Portugal, no século XVIII, «machinhos» grandes, de cinco cordas, que subsistem na Madeira e em Hawai, mas desapareceram aqui (e não se conhecem no Brasil, onde porém existem cavaquinhos pequenos e grandes).

Enfim, em certos casos, aliás pouco frequentes, nomeadamente em Lisboa, um instrumento parecido com o cavaquinho pelo seu formato geral e dimensões, mas com um número superior de cordas (e portanto um braço mais largo), leva também o nome de cavaquinho, embora seja talvez de estirpe e natureza diferente das deste.

Ernesto Veiga de Oliveira in “Instrumentos Populares Portugueses” (edição da Fundação Calouste Gulbenkian)