Peças de vestuário – a capucha e a mantilha

 

A Capucha

De entre as peças de vestuário que apresentam simplicidade de feitio e riqueza de aplicação recorde-se a capucha, de que se ocupou José Júlio César, em Terra Portuguesa: «Nunca a fértil imaginação de alfaiate ou modista inventou peça de vestuário mais apropriada e útil. Não é fácil precisar bem a sua origem, mas tudo leva a crer que viesse do Oriente, sendo trazida à região pelos Árabes, se é que o modelo não foi extraído de alguma gravura, estampa ou desenho vindo dos Lugares Santos, o que é muito natural, portanto a capucha ainda hoje é precisamente o manto que, desde o princípio do Cristianismo, aparece cobrindo a maior parte das imagens. Apenas foi modificado o modelo, adaptando-lhe no cimo, na parte que há-de assentar na cabeça, uma semi-rodela de pano em forma de meia-lua.

É ordinariamente de burel, de fabrico caseiro, havendo-as, também, destinadas especialmente para os domingos e dias de festa, de uma espécie de saragoça preta, muito lustrosa, a que chamam briche. Usa-se na serra do Caramulo e em parte dos concelhos de Viseu, Vouzela, Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Castro Daire e em alguns pontos de Trás-os-Montes. Também se usa em alguns povos dos Açores, mas aí um pouco modificada na parte que cobre a cabeça, que é em forma de capucho ou touca.

A sua utilidade é incomparável.

Se é preciso conduzir um carrego, de uma das pontas faz-se a rodilha, radoiça ou matula, para à cabeça o levar, como de toda ela faz a serrana boa e cómoda almofada que, ficando presa na cabeça, assenta entre os ombros, dando assim o melhor jeito para conduzir pesadas canastras ou enormes molhos de lenha, pastos ou outros fardos. Por esta forma levam os oleiros de Modelos a sua afamada e característica loiça preta aos confins do País e até á própria Espanha.

Do mesmo modo levam as serranas a Águeda e outros povos, a mais de 20km ou 30km, os afamados queijinhos do Caramulo.

Se precisam de levar cereais, hortaliças ou quaisquer outros objectos, e não têm à mão com que melhor os possam conduzir, sem a tirar da cabeça fazem de uma das pontas uma espécie de saca, e com grande facilidade se leva uma grande pontada, como por ali vulgarmente se diz. Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas, e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração. Serve também, enrolada ou torcida, ao comprido, para enfeixar coisas diversas, à maneira de corda ou atilho. Estendida no chão, sobre elas secam feijão, milho ou outros cereais. Se é preciso estender a toalha, para as frugais refeições em pleno campo, e não há perto lage ou relvado, a capucha estira-se no solo, à guisa da mesa, evitando deste modo que a alva toalha vá sujar-se sobre a aterra.

De dia é excelente resguardo das chuvas, neve e granizo; de noite serve de manta na cama. Óptima capa para os rigores do tempo, aproveitam-na pelos dias de Estio para sobre ela se deitarem e, devidamente dobrada, pode servir de travesseira.

Numa das pontas levam, por vezes, a merenda, como no Outono a aproveitam para conduzir os ouriços dos castanheiros que encontram pelos montados.

E até pastores há que dela se têm servido para afugentar os lobos dos rebanhos, assegurando que não há lobo que, em assim vendo caminhar para ele, com o improvisado trapo, como no redondel para o toiro, não fuja desabridamente ou a sete pés, como por lá se diz. Tem ainda a vantagem de se ajustar bem ao corpo e escoar a água, como nenhum outro fato e de, especialmente os homens, poderem sobre ela assentarem o grosso e largo chapéu, para melhor livrarem a chuva da cara.»

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A Mantilha – traje da Beira

Capa com capuz, ou «crapucha», que usam as mulheres no Jarmelo (Beira), sobretudo em enterros; creio que é o mesmo que capucha; usada por uma noiva, à volta de 1880, na Rapa: espécie de capa de pano preto, guarnecida de veludo, mas sem coca [côca], posta pelo ombro, e de que há exemplares ainda em 1918; de coca, também no Ervedal. Em Celorico da Beira, ainda por 1870, as senhoras e as mulheres do povo mas assenhoradas usavam mantilhas para ir à missa, à confissão, a visitas, mas sobretudo à igreja. Era uma capa de pano preto que cobria o corpo todo até aos pés, e tinha em cima uma coca de papelão, a qual podia ser de duas formas: arqueada e bicuda. A mantilha arqueada chama-se de arco, e a bicuda, de bico. Parece que as de bico são de origem anterior.

Usavam indiferentemente uma e outra. Envolviam o corpo todo, porém não tinham colchetes nem botões, fechavam-nas com a mão adiante.

Muito parecido com este é o trajo de missa no Fratel, aldeia do concelho de Vila Velha de Ródão. Usam a mantilha, que chega só até às ancas, com saia preta, blusa preta, meias e sapatos igualmente pretos. Só se usa a coca de arco. Ainda é usada em 1968 pelas mulheres mais velhas (para cima de quarenta anos) e tanto quanto se sabe tem-se usado só para ir à missa. As fotografias [ver ao lado] foram obtidas junto da Capela do Espírito Santo, no Fratel, em Agosto de 1944. No Mação usam, segundo Alberto Pimentel, capucho e mantilha (estes como os do Fratel).

Mantilha vista de frente

Mantilha vista de frente

Mantilha vista de frente

Textos retirados de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos