Sobre as cantigas populares de Trás-os-Montes e Alto Douro

 

«De poeta e de louco todos temos um pouco – diz o povo, baseado na sua prodigiosa intuição e no seu saber todo de experiência feito.

Mas, se o poeta é o Adão que não pecou, como disse o escritor brasileiro, Tristão de Ataíde, então o povo, com as suas virtudes ancestrais, terá de ser o poeta dos poetas.

E assim é, na realidade: ele sente a poesia na alma e vive dela como do ar que respira. Não se limita a apreciá-la, mas cria-a ele próprio. E, como para se fazer ouvir, cria também a música para a acompanhar.

A poesia e a música envolvem-no, como o sangue que lhe circula nas veias, e acompanham-no, desde o berço até ao túmulo.

Para amenizar a dureza do trabalho, canta o lavrador, agarrado à charrua, na lavra dos campos, e o ceifeiro, agarrado à seitoira, no corte das searas.

Para marcar o ritmo dos movimentos, canta o lagareiro, ao pisar os cachos maduros que se transformarão em néctar dos deuses, e a donzela, ao espadelar o linho tomentoso que se transformará em toalhas de altar.

Para quebrar a solidão, canta o pastor, encostado ao cajado, enquanto apascenta o manso rebanho, e a dona de casa nas tarefas domésticas, enquanto aguarda a família ausente.

Para mitigar a saudade, canta o jovem apaixonado, a sonhar com o futuro, e o velho saudoso, a recordar o passado.

Para escamotear o medo, canta baixinho, o viandante nocturno, pelos caminhos desertos, e o soldado receoso, pelos campos de batalha.

Para esconjurar a tristeza, canta a pobre mãe, embalando o filhinho, com o presságio de alguma fatalidade do destino, e a esposa inquieta, pensando no marido, ausente no trabalho ou na guerra.

Para exteriorizar a alegria, cantam rapazes e raparigas, no terreiro da aldeia, depois dos trabalhos, ou no adro da ermida, em dias de festa.

Para rezar mais fervorosamente, canta o povo devoto, na celebração da liturgia ou no clamor das ladainhas.

Daí, a abundância da poesia popular, a reflectir as ocupações e preocupações, as alegrias e tristezas do nosso povo.

A estrutura usual dessa poesia é a quadra, de redondillha maior, e, menos frequentemente, de redondilha menor, com rima cruzada, apenas entre o segundo verso e o quarto.

Os temas são muito variados, mas o amor está na primeira linha.

As árvores, as flores e os frutos; a fonte, o rio e o mar; o Sol, a Lua e as estrelas; as aves, os animais e as pessoas, tudo serve de inspiração, para falar do amor, como evasão da vida prosaica para o páramo da vida poética ou como espiritualização do material quotidiano.

É a saudade do paraíso perdido e a tentativa de a ele regressar.

A forma é policromada de metáforas, ingénuas e pinturescas, que fazem esquecer algumas falhas de métrica ou rima.

Tudo isto faz da poesia popular um apreciável tesouro, de beleza fascinante. (…)»

Joaquim Alves Ferreira in Literatura Popular de Trás-os-Montes e Alto Douro – II volume – Cancioneiro (Prefácio)