Antigas profissões relacionadas com o linho | Ciclo do linho

 

Linheiro / Linheira

De um correspondente do Minho recebeu o A. [José Leite de Vasconcelos] a seguinte informação: «depois de fiado o linho na roca, fica a maçaroca no fuso. A maçaroca vai para o sarilho, onde se forma a meada. A meada entra em barrela, para depois corar ao sol. Corada a meada, vai para a dobadoira formar novelos. Os novelos vão para a urdideira, onde se dispõem os primeiros fios da teia (urdidura ou urdume). A urdidura passa para o tear.»

A teia corresponde ao tecido, enquanto o fio está no tear; o pano é a teia já tecida. A urdidura é uma peça separada do tear; o urdume é o fio com que se urde. As mulheres, no Minho, vão trabalhar às casas dos donos do linho; o seu trabalho consiste em maçar, isto é, batê-lo com uma maça, e depois tascar o linho no cortiço (por isso lhes chamam tascadeiras). Essas mulheres têm almoço, fatiga (segundo almoço), jantar, m’renda; não têm ceia. Ao fim do dia, cada mulher, além da paga, recebe uma estriga, para no outro dia madrugarem bastante.

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos

Tecedeira / Tecelão

Para se urdir a teia, os novelos distribuem-se pelos compartimentos dum tabuleiro, chamado coveleiro; o fio de cada novelo vai passar por um dos 24 orifícios marginais de uma comprida pá (empalhadeira): ao conjunto de 24 fios chama-se um linhol. A urdideira é uma grande dobadoira de dois quadros, travados inferiormente a um ângulo recto, por uma travessa, quando se quer pôr a trabalhar, e que gira em torno do eixo, que vai do soalho ao tecto da casa; um dos lados verticais de um quadro tem na parte superior uma régua horizontal, em que estão cravadas quatro varetas de madeira, e na parte inferior três outras varetas: ao conjunto da régua e das varetas chama-se cruzes.

Os fios de linhol são distribuídos ao alto da urdideira e formam por cada percurso com ramo, os fios do qual passam, de cada vez, alternadamente por cima e por baixo das varetas das cruzes; desta forma, ateia fica disposta para entrar no tear cruzada e assim se manter ali pela acção das canas.

Os teares que tivemos ocasião de ver são constituídos pelas mesmas partes, mas diferem no aspecto e proporções: os de Cales são baixos, compridos e de mesas horizontais; os de Agarez, aldeia a meia hora de caminho daquela, são mais altos, mais curtos e estreitos e de mesas inclinadas, muito semelhantes aos do Minho. Mas aqueles estão a ser substituídos por estes, que dão o pano mais apertado e resistente. [ver imagem abaixo]

A nomenclatura comum é a seguinte: as mesas em que se apoiam e donde nascem as diferentes peças do tear são limitadas num dos topos por uma larga travessa fixada obliquamente, onde a tecedeira se assenta, e no topo oposto pelo orgo (órgão), em que se enrola a teia, que gira nos orifícios de duas peças pregadas às mesas (pombas) e é travado pela tranca que o atravessa e o apoia sobre uma das mesas. Do meio das mesas nascem as cruzes, em cujos braços se apoiam duas travessas: da que é móvel descem as agulhas, tiras de madeira que atravessam os canais e os mantêm na posição conveniente para receberem o pente; o canal superior tem ao meio uma pega (mão) por onde a tecedeira puxa para si o conjunto, num movimento brusco que tem por efeito apertar com o pente o fio transversal, introduzido entre os dois ramos da teia pela lançadeira. Da outra travessa estão suspensos os dois carretões, por cujas roldanas (carrilhos) passam os barbantes que suspendem o seu turno os compostoiros superiores, que, ligados aos inferiores por fios, constituem com estes os liços. Os compostoiros inferiores estão também ligados por barbantes às extremidades de duas alavancas interpotentes (premedeiras), que a tecedeira alternada e sucessivamente faz subir e descer como pedais, para cruzar a cada golpe de lançadeira os ramos da teia que são arrastados pelos liços. O pano tecido passa sobre uma travessa das mesas, colocada entre o assento e as cruzes, e vai enrolar-se num segundo orgo colocado sob as mesas e movido por uma roda, travada por outra pequena tranca que prende em rasgos feitos na periferia da roda. A teia que se desenrola do orgo é mantida cruzada por duas canas, conservadas sempre em posição pela acção do peso ou ferro a elas ligado por um cordel que passa sabre o orgo.

Apontamento sobre urdir ou tecer enviado ao A. pelo Dr. Alberto Candeias, Professor do Liceu de Vila Real

 

 

Antigo tear de linho usado no Minho

Informações retiradas de “ETNOGRAFIA PORTUGUESA” – Livro III – José Leite de Vasconcelos